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Um voto para o “Pornopopéia”

Dezembro 18, 2009

Um post recente aqui no blog perguntava sobre os melhores livros brasileiros de 2009. É pergunta que não arrisco responder. Porque qualquer resposta daria a entender que por trás há leitura suficiente para isso, o que está longe da verdade.

E aí o que resta é a estratégia de sempre: guiar-se pelos prêmios literários, pelas resenhas de jornal, pelas opiniões daqueles a quem nos interessa agradar, pelas apostas seguras nos autores já devidamente cobertos de prestígio e atenção. Mas também não dá pra confiar muito em quem faz uma “lista de melhores” com base nesses critérios.

Apesar de tudo isso, só queria insistir num ponto: me parece justo que qualquer seleção dos melhores de 2009 inclua o Pornopopéia, de Reinaldo Moraes. O livro não ganhou prêmio importante nem foi para a lista dos mais vendidos, mas seus fãs já ultrapassaram há muito os muros da mercearia São Pedro — o bar paulistano que está para Reinaldo Moraes como a Praça Roosevelt para Mário Bortolotto.

Imagino que muitos tenham desistido da leitura por causa do tamanho. Ou por achar que ali está o mesmo ego desgovernado de outros autores associados ao universo “underground”. Ou ainda por acreditar que se trata de um novo Tanto faz, o romance de Reinaldo do começo dos anos 1980 que narra suas estripulias em Paris.

O livro é bem mais que isso, como mostrou esse texto do crítico Alcir Pécora na Folha de S. Paulo (conteúdo restrito). Nos quesitos ambição, refinamento do estilo e humor, estou para ver algum que seja páreo entre os lançamentos de 2009. Fica então o lembrete aos que se arriscam a montar listas dos melhores do ano.

Homenagear Freyre

Dezembro 15, 2009

Justificar a homenagem da FLIP é sempre um malabarismo retórico. No fundo ela não precisa de explicação, já que o filme costuma ser muito parecido: em todos os casos, está em jogo a celebração da obra de um autor canônico da tradição brasileira.

Claro que o alcance crítico é limitado. Como são nomes de grande porte, a quantidade de seminários e colóquios já realizados a respeito deles, a riqueza da fortuna crítica, o conjunto, enfim, do que já se disse a respeito está bem acima do que se pode fazer num evento para grande público como a FLIP.

Por isso não tem como não soar artificial sempre que a curadoria fala em “redimensionar” a figura do homenageado, ou ainda em “resgatar” a importância da obra ou qualquer platitude semelhante.

Importa mesmo o fato de que num país como o Brasil, sempre que há ocasião para falar de autor importante – e a FLIP é uma excelente ocasião –, alguma contribuição terá sido dada.

Alguns critérios são respeitados para a escolha do nome. Neste ano, mais que uma efeméride ou movimento editorial importante, o que motivou a decisão foi o momento particular que vive o Brasil. Pareceu à curadoria que era preciso escolher escritor que tivesse feito da reflexão sobre o país a razão de ser da sua obra. Nesse contexto, há poucos como Gilberto Freyre.

A idéia é trazer para o primeiro plano o debate sobre os rumos do Brasil. A tentativa de fixar uma “identidade brasileira”, a volta do ufanismo nesses últimos anos de era Lula, as aspirações de protagonismo do país no cenário internacional, todos esses temas me parecem dignos de discussão no âmbito dessa homenagem.

Já faz algum tempo, desde o centenário de Gilberto Freyre, em 2000, que trabalhos de relevo vêm sendo publicados sobre o autor e que o debate em torno da obra está aceso. A homenagem da FLIP é mais uma ação nesse cenário bem mais amplo de recuperação e reavaliação de seu legado.

Pode haver antipatia por causa das posições políticas que Freyre assumiu nos anos 1960 e 1970. Vale também perguntar se o elogio que ele faz da sociedade patriarcal combina com o que se deve esperar de um pensador progressista. As críticas procedem e as fragilidades são muito evidentes para não ser debatidas.

Mas o mais importante de sua contribuição não está em xeque. A mestiçagem vista como vantagem, e não defeito, a ênfase sobre a cultura em detrimento da raça, a inovação ao abordar temas da vida cotidiana e íntima (antecipando procedimentos que a história viria a privilegiar nas décadas seguintes), as virtudes inegáveis de prosador, tudo isso está consolidado acima dessas resistências.

Que seja figura controversa é traço que só acrescenta interesse à homenagem.

Keep writing

Dezembro 10, 2009

Junot Díaz escreveu na revista de Oprah Winfrey sobre os cinco anos em que viveu o temido bloqueio criativo e como, justamente a partir dessa fase, teve a certeza de ser um escritor. O texto é tragicômico e tem passagens dignas de folhetim, condizentes com o desespero de Díaz no período: “Era como se, de alguma forma, eu tivesse entrado em um mundo paralelo da não-escrita e não conseguisse achar a saída. Como se estivesse acorrentado ao navio afundado daquelas 75 páginas e não houvesse solução ou remendo para o buraco no casco”, dramatiza o autor. Mas os anos de limbo lhe trouxeram recompensa – Díaz, que é professor de escrita criativa no MIT, foi apontado pela New Yorker como um dos 20 principais escritores do século 21, e A fantástica vida breve de Oscar Wao (primeiro romance do escritor, concluído após a crise) foi o vencedor do Pulitzer de ficção em 2008. (Uma busca nos arquivos da New Yorker indica diversos dos textos do autor reunidos no livro de contos Afogado e publicados originalmente na revista a partir de 1995.)

Poemas da Polônia

Dezembro 8, 2009

O caderno Babelia, suplemento de cultura do El País especializado em literatura, publicou no sábado entrevista com a vencedora do Nobel de literatura de 1996, a polonesa Wislawa Szymborska, de 86 anos. Durante a conversa com Javier Rodríguez Marcos, a poeta falou sobre a presença, ou ausência, de grandes temas como a guerra, a morte e o amor em sua produção, conhecida pela linguagem coloquial e pelo trânsito entre o lirismo e a ironia.

Para Szymborska, o bom poema precisa estar ligado à realidade, à vida do poeta ou de outras pessoas. Não à toa, a Fundação Nobel justificou o prêmio “pela poesia que, com precisão, permite que o contexto histórico e biológico se traduza em fragmentos da realidade humana”. Szymborska faz parte de um grupo de autores poloneses, formado também por Czeslaw Milosz e Zbigniew Herbert, que se tornaram conhecidos internacionalmente durante a Guerra Fria. Há um artigo no site Words Without Borders com mais informações a respeito.

No Brasil, não há nenhum livro de Szymborska disponível em português, mas para quem quiser conhecer mais sobre suas obras, o próprio site do prêmio Nobel traz uma análise de diversos de seus poemas.

Desafios da era virtual

Dezembro 3, 2009

O Itaú Cultural realiza, de 3 a 5 de dezembro, o VI Colóquio Rumos Jornalismo Cultural, que reúne, sob o tema Convergências, profissionais de comunicação de todas as mídias. Luiz Antonio Giron, editor da seção Mente Aberta da revista Época; Almir de Freitas, editor-sênior da revista Bravo!; Lúcia Guimarães, correspondente d’ O Estado de S. Paulo e da Rádio Eldorado em Nova York; e os jornalistas e escritores José Castello e Humberto Werneck, entre outros, discutem questões como a emergência de novos sites e coletivos de referência e as implicações da difusão do Twitter.

A programação completa do evento pode ser vista no site do Itaú Cultural.

Que rufem os tambores

Dezembro 1, 2009

A dica chega atrasada, mas vale a pena ler a matéria do Guardian da semana passada com os melhores livros do ano eleitos por escritores, editores, cineastas e até chefs de cozinha e estilistas de peso. Cada um puxou a sardinha para sua própria área, o que dá uma dimensão abrangente das boas publicações lançadas durante este ano segundo a pesquisa do Guardian.  O New York Times também acaba de publicar sua lista dos mais notáveis de 2009, seleção feita anualmente pelo jornal desde 1999.

Uma comparação entre as listas mostra que, dos 76 livros citados pela matéria do Guardian e dos 100 eleitos pelo Times, há somente oito em comum. É claro que a aproximação tem seus limites, já que os consultados do Guardian têm formação mais heterogênea, o que dá margem para a presença de muitos livros de não-ficção. De qualquer forma, o romance Brooklyn, de Colm Tóibín (FLIP 2004), e a reunião de poemas Rain, de Don Paterson, citados várias vezes na pesquisa do Guardian, não figuram na lista do Times.

Mas vamos aos unânimes: Wolf Hall, é claro, da vencedora do Booker deste ano, Hilary Mantel; Cheever: A Life, biografia do contista John Cheever escrita por Blake Bailey; o romance Love and Summer, do inglês William Trevor; o inventivo Let the Great World Spin, romance de Colum McCann que aborda a travessia do equilibrista francês Philippe Petit entre as torres do World Trade Center de Nova York, em 1974; A Gate at the Stairs, de Lorrie Moore, sobre a passagem para a vida adulta de uma garota no pós-11 de setembro; Everything Ravaged, Everything Burned, primeira reunião de contos de Wells Tower; o político Zeitoun, não-ficção de Dave Eggers sobre a situação de uma família síria após a passagem do furacão Katrina, em Nova Orleans (EUA), em 2005; e The Little Stranger, de Sarah Waters, romance que combina suspense e crítica social, ambientado na Inglaterra do pós-guerra.

Vale lembrar que Clarice,, a biografia de Clarice Lispector escrita pelo norte-americano Benjamin Moser e lançada em São Paulo na semana passada, foi eleita um dos notáveis do NYT. E, falando em Brasil, não encontrei na internet uma lista com os melhores livros do país de 2009. Sabemos que o Jabuti elegeu, na ordem, Manual da Paixão Solitária, de Moacyr Scliar, Orfãos do Eldorado, de Milton Hatoum, e Cordilheira, de Daniel Galera, como os melhores romances de 2008; que a Portugal Telecom premiou Ó, do artista Nuno Ramos; e que Leite Derramado, de Chico Buarque, foi o vencedor na categoria Literatura do Bravo! Prime deste ano. Fica a pergunta aos leitores do blog da FLIP: quais foram os grandes feitos da literatura brasileira em 2009? 

Wood versus Auster

Novembro 27, 2009

“Cova Rasa” é o título do artigo de James Wood sobre Paul Auster, publicado na última New Yorker na esteira do lançamento de Invisible, livro mais recente do escritor.  Considerado por muitos de seus pares o melhor crítico literário de sua geração, Wood é reconhecido pela defesa do realismo literário em detrimento da literatura pós-moderna, e a resenha de Auster concentra grande parte dos argumentos frequentes de Wood em sua cruzada.

O crítico sugere uma fórmula aos “agradáveis, levemente condescendentes” livros do escritor e a toma emprestada para criar o começo de um romance a la Auster na abertura do artigo, dando indício aos leitores de que não será dócil o teor dos parágrafos seguintes.

Há uma longa passagem em que comenta a presença de clichês nas obras de Auster. Ao contrário de Flaubert, em cujos romances as expressões gastas são empregadas com ironia, ou mesmo de Beckett e Nabokov, conscientes do “tomar emprestado” da cultura de massa, Auster “não faz nada com o clichê, a não ser usá-lo”, afirma Wood.

Seus enredos, de forma geral, são caracterizados por Wood como de um realismo pouco convincente e até dotados de certa atmosfera de filme B. As reviravoltas da trama – que, a propósito, Hollywood foi pródiga em consagrar-, fariam de seus romances máximas do surrealismo ou, tomando uma perspectiva otimista, suas histórias traduziriam apenas um realismo diluído, pasteurizado.

E quem esperava do artigo ao menos um final redentor não soube dimensionar o cinismo de seu início.  Aqui, a superficialidade e a futilidade sugeridas pelo título soam como galanteios: Wood traz à tona o conceito da linguagem contemporânea ligada ao vazio, à ausência, apenas para solicitar: mais silêncio, Auster.

Para quem deseja assistir a todos os rounds, o artigo pode ser lido na íntegra na versão digital da New Yorker, que trouxe ainda conto inédito de Don DeLillo.

Últimas palavras

Novembro 26, 2009

A editora norte-americana Melville acaba de lançar The Last Interview & Other Conversations, reunião de entrevistas realizadas com Roberto Bolaño por diversos jornalistas da América Latina ao longo dos cinco anos que ele levou para escrever 2666, romance de quase 900 páginas publicado postumamente em 2004. Parte da última entrevista, concedida à jornalista Monica Maristain para a Playboy mexicana no mês da morte de Bolaño e reeditada no livro, foi disponibilizada no blog de literatura do New York Times. É curioso observar em retrospectiva um escritor de temática densa e alçado a cânone por críticos literários de todo o ocidente respondendo a questões típicas da linha editorial da revista, como “John Lennon, Lady Di ou Elvis Presley?”

Demorou, mas…

Novembro 25, 2009

Publicamos aqui os melhores poemas da oficina de poesia da FLIP 2009, selecionados por Carlito Azevedo.

Pedras

I

Depois de anos passeando juntos pela estrada de pedras, quando ela finalmente se tornou plana, tropeçaram.

II

Estão aqui, bem aqui, todas as pedras.

A que atirei de bodoque, aleijando o passarinho, aos nove.

A que arremessei com êxito na vidraça do vizinho (e culpei a bola), aos treze.

A que atingiu em cheio o supercílio do policial naquela manifestação em prol não sei de quê, aos dezessete.

A pontuda que deixei estrategicamente embaixo do pneu do vizinho, aos trinta.

A pedra grave, pesada, que pus em cima do assunto que Vanessa preferia manter em aberto, aos quarenta.

E inclusive esta, fria, rígida, que amanhã não comemora quarenta e um.

Marco Bassini

Atacama

Ver o Afeganistão no Atacama de um jeep 4 x 2

ouvindo The Doors no som – no me moleste mosquito

pero acá no hay nadie

por acaso na hora da foto

uma placa de Coca-Cola empoeirada e caída:

não havia P.D.V.

mais adiante a igreja

que ao sol parece aerada

concentra nuvens de adobe

porém levaram São Pedro

no alto, vulcão rosado

tem textura de aquarela

seguindo reto – ainda falta -

laranjada a dez reais

e uma leva de europeus

é o azul marinho maciço

atrás de pontos de prata

que prenuncia a troca

das peles surradas quentes

de pescadores-ferrugem

pelo vestir-se em abraços

na remota tentativa de

estancar feridas secas

superar queda dos graus

a estrada: única palavra

ao alcance do horizonte

não acompanha o ritmo

do que era ritmo antes

Maria Cecilia Brandi

Nós vamos afundar
Vejo três meninas caindo rápidas, enfunadas, como se dançassem
ainda.

Jorge de Lima
Não é: o que é arte?, mas? quando é arte?
A partir de Nelson Goodman

Antes dos remorsos
desse avião despedaçado
que nunca passeou com os filhos,
antes dos poetas míopes,
do homem de chapéu Panamá,
e dos colecionadores de nuvens,
antes que o sino dobre
e o mosquito amigo do rei
penetre a pele velada
pelo mosquiteiro furado,
nós vamos afundar
dançando devagar até o fundo da
garrafa e lá vamos nos reencontrar
transformadas em bestas
de corpo fosforescente, criaturas
vivendo sem luz, no fundo
mais fundo, submersos
no lodo, sem olhos
para abrir e ver,
só um par de antenas
cravadas no couro velho e duro.

E, no momento mais agudo,
esses monstros lá de baixo
vão nos mastigar devagar
e, como nossas irmãs hienas,
vão nos enterrar na areia
e voltar para comer
o resto mais tarde.
Mas um corpo morto é um copo
deitado, não segura mais nada;
aberto para o mundo,
não se fecha nunca mais.

Ah, nós vamos afundar
devagar, e vai ser bom demais.
Porque lá no fundo a felicidade
vai estar nos esperando
com a boca aberta,
macia, sem dentes, pronta para
nos reconhecer
e nos engolir sem mastigar.

Ah, vai ser bom demais.
Nós vamos afundar
agora, juntas.

Paulo Moreira

Desonra no cinema

Outubro 22, 2009

Não sei se é desatenção minha, mas acho que ninguém deu muita bola no Brasil à versão cinematográfica de Desonra, o romance premiado de J. M. Coetzee (FLIP 2007). Tanto que o filme nem chegou a estrear no cinema: foi direto para o DVD.

Há John Malkovich no papel de David Lurie, o professor de literatura que cai em desgraça após acusação de assédio sexual. Há tomadas grandiosas das paisagens do interior sul-africano. Há ainda trilha sonora cheia de efeitos, cores esfuziantes e demais recursos do cinemão. Mas nem por isso se falou do filme por aqui.

Confesso que achei meio sem graça e artificial. Mas o ponto não é esse. Quando o livro saiu no Brasil, em 2000, a crítica fez um auê danado – poucas obras de ficção foram tão festejadas nos últimos tempos. Mas mesmo assim os exibidores acharam que não valia a pena levar o filme para o circuito comercial.

É verdade que os grandes autores contemporâneos não costumam ser campeões de bilheteria: os últimos filmes inspirados em trabalhos de Philip Roth, por exemplo, não eram exatamente empolgantes. Mas pelo menos o leitor pôde verificar isso no cinema. Queria entender por que a Coetzee não foi dada a mesma chance no Brasil.