Não gosta de caqui

By Flavio Moura

Abaixo vai um “flash autobiográfico” de Manuel Bandeira. O texto saiu nos “Arquivos Implacáveis”, criados pelo jornalista João Condé (1912-1996) em 1946.

Publicados inicialmente no jornal “A Manhã”, os arquivos reuniam dados diversos sobre escritores brasileiros – curiosidades biográficas, perfis, poemas e trechos de prosa inéditos, entrevistas, pequenas resenhas.

Em suma: se fosse hoje, seria um blog.

Nos anos 1950, a seção passou a ser publicada na revista “O Cruzeiro”, onde saiu o trecho que se lê abaixo:

 

Nome: Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho. Nasceu no Recife, na rua Joaquim Nabuco, em 1886. Solteiro, sem filhos. Altura: 1,68m, sem sapatos. Colarinho nº 40 (pescoço forte!). Sapatos nº 39. É míope, usa óculos e se sente infeliz por isso. Tem ficado bastante surdo com a idade e se sente muito infeliz por isso. Já deixou duas vezes de fumar e não tem muito orgulho disso, porque acha, como Pedro Dantas (Prudente de Morais, neto), que é mais fácil deixar de fumar do que fumar pouco. Acorda às sete e meia, deita-se à meia noite. Agradece os livros que recebe e responde as cartas; danado da vida, mas responde. Gosta de criança e de animais, sobretudo de cachorro. Não gosta de abiu nem de caqui, nem de melancia. É contra os regimes totalitários, da direita ou da esquerda, contra a lei de inquilinato e contra a mão-única nas ruas Marquês de Abrantes e Senador Vergueiro. Suas orações: o Padre-Nosso e o verso de Verlaine “Seigneur, délivrez moi de l’orgueil toujours bête”. Cada vez mais admira e estima o poeta Carlos Drummond de Andrade, e diz: “Quem não estiver de acordo, é favor não falar mais comigo”. Poeta brasileiro de sua predileção: o citado. Romancistas brasileiros de sua predileção: José Lins do Rego e Rachel de Queiroz. Contistas de sua predileção: Ribeiro Couto, Rodrigo M. F. de Andrade e Marques Rebelo. Seu cronista predileto: o velho Braga. Pintores brasileiros de sua predileção: Portinari, Pancetti e Cícero Dias da 1ª fase. Escultor brasileiro de sua predileção: Celso Antônio. Compositores brasileiros de sua predileção: não tem predileto. Pertence ao Partido Socialista Brasileiro. Não é requintado: gosta de jiló, cinema falado, rádio, mesmo com “friture”, e de poetas de segunda ordem. Seu maior amigo: Rodrigo M. F. de Andrade. Detesta escrever para jornais e falar em público. Não tem nenhuma religião, mas a de sua simpatia é a católica. Se pudesse recomeçar a vida, gostaria de ser o que não pode: arquiteto. Arte de sua predileção: a música. Gosta de antigos e modernos, preferindo acima de todos Bach, Haydn e Mozart. Gosta de todo gênero de leitura, sem predileção. Tem medo de ter medo na hora de morrer. Escreve diretamente a máquina; quando se trata de poesia, rascunha a lápis as primeiras idéias dos poemas. Gosta mais de visitar do que ser visitado. Não tem secretário nem criado, e prepara o seu café da manhã; sabe fazer muito bem sorvete de café e doce de leite. Gosta da solidão. Com um poema publicado num jornal conseguiu que o prefeito Mendes de Morais mandasse calçar o pátio para onde dão as janelas do seu apartamento. Não se casou porque perdeu a vez. Ri com muita facilidade porque é dentuço. Homem de muitos amigos. Como Valéry, raramente faz versos, mas em matéria de poesia é o anti-Valéry: acredita e confia na inspiração, acredita na reabilitação do lugar-comum. Guarda pelo Recife a sua ternura de infância. Costuma veranear desde 1914 em Petrópolis. Não se consola de ter estado três dias em Paris, sem ver Paris. Publicou o seu primeiro livro aos 31 anos (A cinza das horas). Faz versos desde os dez anos de idade. Já tocou violão e sabe executar ao piano dois prelúdios de Chopin, um número do Carnaval de Schumann e uma peçazinha de MacDowell. Coisas que mais detesta: fila de qualquer coisa, responder a enquetes, dar opinião sobre os pardais novos, esperar retardatários, fazer plantão em guichê, viajar de trem etc. Gosta de: tirar retratos, ver figuras, ler suplementos literários, bestar etc. Suas reminiscências mais antigas remontam aos três anos de idade e estão contados no seu poema “Infância”. Tem uma dúzia de poemas novos, que em futura edição de “Poesias completas” serão incorporados ao livro Opus 10. Aprecia os novos e novíssimos da poesia brasileira, ledos ou não. Gostaria de morrer de repente, mas em casa.

Tags: , ,

3 Respostas para “Não gosta de caqui”

  1. José Otávio Pompeu e Silva Disse:

    muito interessante esta preciosidade que publicou.
    Em um evento sobre Manuel Bandeira acredito que precisamos escutar a pesquisadora e escritora Elvia Bezerra que escreveu a Trinca do Curvelo e que poderia estar presente numa mesa intitulada “Zeitgeist de Manuel Bandeira”.

  2. Lulu Disse:

    fiquei rindo sozinha porque achei que só minha bisavó falasse “bestar” (saudade dela e das histórias que ela contava). hoje em dia ninguém mais saber que isso significa caminhar a esmo…

  3. Quem vê pedigree não vê coração « Crônico Disse:

    [...] Clichê e lugar-comum, não? Bem Manuel Bandeira me autorizou a escrever sobre o lugar-comum depois desse ‘flash autobiográfico’ dele [indicação da Dani [...]

Deixe uma resposta