É dada a largada

janeiro 27, 2010 por Ana Carolina Arantes

O irlandês Colum McCann é o primeiro nome confirmado para a Flip deste ano. Autor de dois livros de contos e seis romances, como Zoli, Dancer e The Slide of Brightness, McCann foi traduzido para mais de 30 línguas e teve seus textos publicados em revistas como New Yorker, New York Times Magazine e Paris Review. Começou a carreira como jornalista do Irish Press e já contribuiu com Guardian, The Independent, La Republicca, Paris Match e The New York Times, entre outros.

Seu último livro, Let the Great World Spin, considerado pela revista Esquire “o primeiro grande romance sobre 11 de setembro”, parte da famosa travessia do equilibrista francês Philippe Petit entre as torres do World Trade Center de Nova York, em 1974, para narrar histórias fictícias de anônimos que o observavam no momento. (Neste vídeo, da Amazon, o autor comenta o processo de criação e a inspiração para o romance). O livro garantiu a McCann a vitória do National Book Awards e figurou nas inúmeras listas de melhores de 2009. Sob o título Deixe o grande mundo girar, sairá no Brasil pela Record ainda no primeiro semestre deste ano.

Judt, doença e autocrítica

janeiro 12, 2010 por Flavio Moura

Em dezembro de 2007, num restaurante no bairro do Flamengo, uma conversa entre a curadoria da Flip e a editora Objetiva firmou a intenção de convidar o historiador Tony Judt para a Flip. Seu livro Pós-guerra estava para sair nos meses seguintes e a presença do autor em Paraty seria uma boa maneira de apresentar ao público brasileiro um historiador ainda pouco lido por aqui.

Pouco antes da Flip, em junho de 2008, ele escreveu para dizer que não viria mais. Alegava problemas familiares e necessidades de viagem. Tinha toda pinta de desculpa esfarrapada. A curadoria insistiu, inconformada com a baixa de um convidado importante daquela edição da Festa.

Para o evento de 2009, um novo convite foi enviado. Ele mesmo respondeu, cordato, mas dizia que os problemas de saúde continuavam e que ele não podia aceitar. Como muitos que preferem não expor a causa efetiva da recusa dizem o mesmo, a curadoria continuou sem acreditar na história.

Em outubro, um anúncio em diversas publicações americanas de que ele faria uma conferência na Universidade de Nova York parecia comprovar a tese: se faria uma aparição pública dessa magnitude, então não estava tão mal assim, era tudo desculpa.

Mais uma vez a Flip se preparava para insistir no convite. A presença de um historiador dessa importância seria sucesso na certa: páginas e páginas na imprensa, uma conferência memorável sobre o jogo político contemporâneo, mais um “nome de peso” para a galeria dos notáveis de Paraty.

Há um automatismo na lida com os convites que às vezes atrapalha: é grande o risco de acabar trabalhando apenas para comprovar o prestígio da Flip, expor o quanto a curadoria é “antenada” com o debate internacional, confundir escolha criteriosa com mercantilismo da notoriedade alheia.

E esse não é traço apenas dos festivais literários. Editoras de livro, cadernos de jornal, gravadoras, galerias de arte, quem quer que trabalhe com cultura está sujeito ao risco: o nome do autor às vezes parece que se descola do seu trabalho, vira um objeto de desejo numa luta por distinção que pode descambar para o fetichismo. Daí para a lógica das grifes do mundo da moda é um pulo.

Por tudo isso me pareceu tão forte o texto de Judt publicado na Folha de S. Paulo neste domingo. O autor sofre de uma doença degenerativa gravíssima. Está paralisado do pescoço para baixo, respira por aparelhos, depende de ajuda para realizar as atividades mais básicas.

O texto divide com os leitores os detalhes de seu sofrimento de maneira impiedosa. Ao lado, uma foto sua na tal conferência na Universidade de Nova York, em que já aparece em cadeira de rodas e respirando com auxílio de máquinas. O diagnóstico veio justamente em 2008, época em que desistiu de vir ao Brasil.

A descrição de Judt, feita mais de secura e resignação que de autopiedade, é forte e transforma a insistência da Flip numa atitude que pede esta autocrítica. Ela restitui as disputas por prestígio à dimensão que efetivamente possuem.

Claro que as regras do jogo existem e devem ser respeitadas: na Flip como em qualquer instituição cultural, o perfil ideal de participante alia qualidade do trabalho, respeitabilidade crítica e notoriedade. É nisso que a curadoria centra foco e não me parece errado que seja assim.

Mas quando a vida é quem apresenta a conta, a hora é boa para repensar os critérios e lembrar quais os valores que de fato importam.

Round 2

janeiro 8, 2010 por Ana Carolina Arantes

A rivalidade entre António Lobo Antunes e José Saramago foi assunto retomado por matéria na última Bravo! após povoar jornais, blogs e conversas sobre literatura no Brasil de forma intensa, principalmente no período da Flip 2009, quando Lobo Antunes protagonizou uma das mesas mais elogiadas da Flip. A preferência brasileira por Saramago – influenciada de certa forma por sua maior representatividade no mercado editorial brasileiro – foi comentada em diversas das matérias escritas a propósito da visita de seu oponente ao Brasil. Repetida a exaustão, a alcunha de “maior escritor de língua portuguesa após Eça de Queiroz”, atribuída a Lobo Antunes, causou surpresa a muitos, já que se tratava de um autor relativamente desconhecido no país. Apesar de contar episódios divertidos do aspecto pessoal da rixa – entre cavalheiros que, sim, se estranham, mas nunca perdem a classe -, a revista focaliza o embate literário e pede aos críticos José Castello e Paulo Polzonoff Jr. que defendam suas predileções. O balanço pode ser lido na íntegra, na versão on-line da matéria.

Farpas aos quatro cantos

janeiro 6, 2010 por Ana Carolina Arantes

O escritor e jornalista inglês Will Self (Flip 2007) lançou recentemente Psycho Too, uma reunião de ensaios escritos a partir de viagens do autor a lugares inusitados, provincianos ou simplesmente propensos a atrair sua costumeira e mordaz ironia, caso dos Emirados Árabes – “Acredito que, se você compra uma casa numa península artificial de 25 quilômetros quadrados em forma de palmeira, sentirá a ira de Deus em sua direção”. Uma cabana de um ermitão em Suffolk, na Inglaterra, e o estado da Baviera, na Alemanha, são outros destinos que rendem observações ácidas de Self. Fundamentais às narrativas de Psycho Too, as ilustrações ficaram a cargo de Halph Steadman, conhecido pela longa parceria com o também provocativo Hunter Thompson, criador do chamado jornalismo gonzo. No Brasil, Self possui publicados os romances Os grandes símios (1997), Como vivem os mortos (2000) e O livro de Dave (2007).

Ilustração de Halph Steadman para Psycho Too

Um voto para o “Pornopopéia”

dezembro 18, 2009 por Flavio Moura

Um post recente aqui no blog perguntava sobre os melhores livros brasileiros de 2009. É pergunta que não arrisco responder. Porque qualquer resposta daria a entender que por trás há leitura suficiente para isso, o que está longe da verdade.

E aí o que resta é a estratégia de sempre: guiar-se pelos prêmios literários, pelas resenhas de jornal, pelas opiniões daqueles a quem nos interessa agradar, pelas apostas seguras nos autores já devidamente cobertos de prestígio e atenção. Mas também não dá pra confiar muito em quem faz uma “lista de melhores” com base nesses critérios.

Apesar de tudo isso, só queria insistir num ponto: me parece justo que qualquer seleção dos melhores de 2009 inclua o Pornopopéia, de Reinaldo Moraes. O livro não ganhou prêmio importante nem foi para a lista dos mais vendidos, mas seus fãs já ultrapassaram há muito os muros da mercearia São Pedro — o bar paulistano que está para Reinaldo Moraes como a Praça Roosevelt para Mário Bortolotto.

Imagino que muitos tenham desistido da leitura por causa do tamanho. Ou por achar que ali está o mesmo ego desgovernado de outros autores associados ao universo “underground”. Ou ainda por acreditar que se trata de um novo Tanto faz, o romance de Reinaldo do começo dos anos 1980 que narra suas estripulias em Paris.

O livro é bem mais que isso, como mostrou esse texto do crítico Alcir Pécora na Folha de S. Paulo (conteúdo restrito). Nos quesitos ambição, refinamento do estilo e humor, estou para ver algum que seja páreo entre os lançamentos de 2009. Fica então o lembrete aos que se arriscam a montar listas dos melhores do ano.

Homenagear Freyre

dezembro 15, 2009 por Flavio Moura

Justificar a homenagem da FLIP é sempre um malabarismo retórico. No fundo ela não precisa de explicação, já que o filme costuma ser muito parecido: em todos os casos, está em jogo a celebração da obra de um autor canônico da tradição brasileira.

Claro que o alcance crítico é limitado. Como são nomes de grande porte, a quantidade de seminários e colóquios já realizados a respeito deles, a riqueza da fortuna crítica, o conjunto, enfim, do que já se disse a respeito está bem acima do que se pode fazer num evento para grande público como a FLIP.

Por isso não tem como não soar artificial sempre que a curadoria fala em “redimensionar” a figura do homenageado, ou ainda em “resgatar” a importância da obra ou qualquer platitude semelhante.

Importa mesmo o fato de que num país como o Brasil, sempre que há ocasião para falar de autor importante – e a FLIP é uma excelente ocasião –, alguma contribuição terá sido dada.

Alguns critérios são respeitados para a escolha do nome. Neste ano, mais que uma efeméride ou movimento editorial importante, o que motivou a decisão foi o momento particular que vive o Brasil. Pareceu à curadoria que era preciso escolher escritor que tivesse feito da reflexão sobre o país a razão de ser da sua obra. Nesse contexto, há poucos como Gilberto Freyre.

A idéia é trazer para o primeiro plano o debate sobre os rumos do Brasil. A tentativa de fixar uma “identidade brasileira”, a volta do ufanismo nesses últimos anos de era Lula, as aspirações de protagonismo do país no cenário internacional, todos esses temas me parecem dignos de discussão no âmbito dessa homenagem.

Já faz algum tempo, desde o centenário de Gilberto Freyre, em 2000, que trabalhos de relevo vêm sendo publicados sobre o autor e que o debate em torno da obra está aceso. A homenagem da FLIP é mais uma ação nesse cenário bem mais amplo de recuperação e reavaliação de seu legado.

Pode haver antipatia por causa das posições políticas que Freyre assumiu nos anos 1960 e 1970. Vale também perguntar se o elogio que ele faz da sociedade patriarcal combina com o que se deve esperar de um pensador progressista. As críticas procedem e as fragilidades são muito evidentes para não ser debatidas.

Mas o mais importante de sua contribuição não está em xeque. A mestiçagem vista como vantagem, e não defeito, a ênfase sobre a cultura em detrimento da raça, a inovação ao abordar temas da vida cotidiana e íntima (antecipando procedimentos que a história viria a privilegiar nas décadas seguintes), as virtudes inegáveis de prosador, tudo isso está consolidado acima dessas resistências.

Que seja figura controversa é traço que só acrescenta interesse à homenagem.

Keep writing

dezembro 10, 2009 por Ana Carolina Arantes

Junot Díaz escreveu na revista de Oprah Winfrey sobre os cinco anos em que viveu o temido bloqueio criativo e como, justamente a partir dessa fase, teve a certeza de ser um escritor. O texto é tragicômico e tem passagens dignas de folhetim, condizentes com o desespero de Díaz no período: “Era como se, de alguma forma, eu tivesse entrado em um mundo paralelo da não-escrita e não conseguisse achar a saída. Como se estivesse acorrentado ao navio afundado daquelas 75 páginas e não houvesse solução ou remendo para o buraco no casco”, dramatiza o autor. Mas os anos de limbo lhe trouxeram recompensa – Díaz, que é professor de escrita criativa no MIT, foi apontado pela New Yorker como um dos 20 principais escritores do século 21, e A fantástica vida breve de Oscar Wao (primeiro romance do escritor, concluído após a crise) foi o vencedor do Pulitzer de ficção em 2008. (Uma busca nos arquivos da New Yorker indica diversos dos textos do autor reunidos no livro de contos Afogado e publicados originalmente na revista a partir de 1995.)

Poemas da Polônia

dezembro 8, 2009 por Ana Carolina Arantes

O caderno Babelia, suplemento de cultura do El País especializado em literatura, publicou no sábado entrevista com a vencedora do Nobel de literatura de 1996, a polonesa Wislawa Szymborska, de 86 anos. Durante a conversa com Javier Rodríguez Marcos, a poeta falou sobre a presença, ou ausência, de grandes temas como a guerra, a morte e o amor em sua produção, conhecida pela linguagem coloquial e pelo trânsito entre o lirismo e a ironia.

Para Szymborska, o bom poema precisa estar ligado à realidade, à vida do poeta ou de outras pessoas. Não à toa, a Fundação Nobel justificou o prêmio “pela poesia que, com precisão, permite que o contexto histórico e biológico se traduza em fragmentos da realidade humana”. Szymborska faz parte de um grupo de autores poloneses, formado também por Czeslaw Milosz e Zbigniew Herbert, que se tornaram conhecidos internacionalmente durante a Guerra Fria. Há um artigo no site Words Without Borders com mais informações a respeito.

No Brasil, não há nenhum livro de Szymborska disponível em português, mas para quem quiser conhecer mais sobre suas obras, o próprio site do prêmio Nobel traz uma análise de diversos de seus poemas.

Desafios da era virtual

dezembro 3, 2009 por Equipe de comunicação da FLIP

O Itaú Cultural realiza, de 3 a 5 de dezembro, o VI Colóquio Rumos Jornalismo Cultural, que reúne, sob o tema Convergências, profissionais de comunicação de todas as mídias. Luiz Antonio Giron, editor da seção Mente Aberta da revista Época; Almir de Freitas, editor-sênior da revista Bravo!; Lúcia Guimarães, correspondente d’ O Estado de S. Paulo e da Rádio Eldorado em Nova York; e os jornalistas e escritores José Castello e Humberto Werneck, entre outros, discutem questões como a emergência de novos sites e coletivos de referência e as implicações da difusão do Twitter.

A programação completa do evento pode ser vista no site do Itaú Cultural.

Que rufem os tambores

dezembro 1, 2009 por Ana Carolina Arantes

A dica chega atrasada, mas vale a pena ler a matéria do Guardian da semana passada com os melhores livros do ano eleitos por escritores, editores, cineastas e até chefs de cozinha e estilistas de peso. Cada um puxou a sardinha para sua própria área, o que dá uma dimensão abrangente das boas publicações lançadas durante este ano segundo a pesquisa do Guardian.  O New York Times também acaba de publicar sua lista dos mais notáveis de 2009, seleção feita anualmente pelo jornal desde 1999.

Uma comparação entre as listas mostra que, dos 76 livros citados pela matéria do Guardian e dos 100 eleitos pelo Times, há somente oito em comum. É claro que a aproximação tem seus limites, já que os consultados do Guardian têm formação mais heterogênea, o que dá margem para a presença de muitos livros de não-ficção. De qualquer forma, o romance Brooklyn, de Colm Tóibín (FLIP 2004), e a reunião de poemas Rain, de Don Paterson, citados várias vezes na pesquisa do Guardian, não figuram na lista do Times.

Mas vamos aos unânimes: Wolf Hall, é claro, da vencedora do Booker deste ano, Hilary Mantel; Cheever: A Life, biografia do contista John Cheever escrita por Blake Bailey; o romance Love and Summer, do inglês William Trevor; o inventivo Let the Great World Spin, romance de Colum McCann que aborda a travessia do equilibrista francês Philippe Petit entre as torres do World Trade Center de Nova York, em 1974; A Gate at the Stairs, de Lorrie Moore, sobre a passagem para a vida adulta de uma garota no pós-11 de setembro; Everything Ravaged, Everything Burned, primeira reunião de contos de Wells Tower; o político Zeitoun, não-ficção de Dave Eggers sobre a situação de uma família síria após a passagem do furacão Katrina, em Nova Orleans (EUA), em 2005; e The Little Stranger, de Sarah Waters, romance que combina suspense e crítica social, ambientado na Inglaterra do pós-guerra.

Vale lembrar que Clarice,, a biografia de Clarice Lispector escrita pelo norte-americano Benjamin Moser e lançada em São Paulo na semana passada, foi eleita um dos notáveis do NYT. E, falando em Brasil, não encontrei na internet uma lista com os melhores livros do país de 2009. Sabemos que o Jabuti elegeu, na ordem, Manual da Paixão Solitária, de Moacyr Scliar, Orfãos do Eldorado, de Milton Hatoum, e Cordilheira, de Daniel Galera, como os melhores romances de 2008; que a Portugal Telecom premiou Ó, do artista Nuno Ramos; e que Leite Derramado, de Chico Buarque, foi o vencedor na categoria Literatura do Bravo! Prime deste ano. Fica a pergunta aos leitores do blog da FLIP: quais foram os grandes feitos da literatura brasileira em 2009?