Em dezembro de 2007, num restaurante no bairro do Flamengo, uma conversa entre a curadoria da Flip e a editora Objetiva firmou a intenção de convidar o historiador Tony Judt para a Flip. Seu livro Pós-guerra estava para sair nos meses seguintes e a presença do autor em Paraty seria uma boa maneira de apresentar ao público brasileiro um historiador ainda pouco lido por aqui.
Pouco antes da Flip, em junho de 2008, ele escreveu para dizer que não viria mais. Alegava problemas familiares e necessidades de viagem. Tinha toda pinta de desculpa esfarrapada. A curadoria insistiu, inconformada com a baixa de um convidado importante daquela edição da Festa.
Para o evento de 2009, um novo convite foi enviado. Ele mesmo respondeu, cordato, mas dizia que os problemas de saúde continuavam e que ele não podia aceitar. Como muitos que preferem não expor a causa efetiva da recusa dizem o mesmo, a curadoria continuou sem acreditar na história.
Em outubro, um anúncio em diversas publicações americanas de que ele faria uma conferência na Universidade de Nova York parecia comprovar a tese: se faria uma aparição pública dessa magnitude, então não estava tão mal assim, era tudo desculpa.
Mais uma vez a Flip se preparava para insistir no convite. A presença de um historiador dessa importância seria sucesso na certa: páginas e páginas na imprensa, uma conferência memorável sobre o jogo político contemporâneo, mais um “nome de peso” para a galeria dos notáveis de Paraty.
Há um automatismo na lida com os convites que às vezes atrapalha: é grande o risco de acabar trabalhando apenas para comprovar o prestígio da Flip, expor o quanto a curadoria é “antenada” com o debate internacional, confundir escolha criteriosa com mercantilismo da notoriedade alheia.
E esse não é traço apenas dos festivais literários. Editoras de livro, cadernos de jornal, gravadoras, galerias de arte, quem quer que trabalhe com cultura está sujeito ao risco: o nome do autor às vezes parece que se descola do seu trabalho, vira um objeto de desejo numa luta por distinção que pode descambar para o fetichismo. Daí para a lógica das grifes do mundo da moda é um pulo.
Por tudo isso me pareceu tão forte o texto de Judt publicado na Folha de S. Paulo neste domingo. O autor sofre de uma doença degenerativa gravíssima. Está paralisado do pescoço para baixo, respira por aparelhos, depende de ajuda para realizar as atividades mais básicas.
O texto divide com os leitores os detalhes de seu sofrimento de maneira impiedosa. Ao lado, uma foto sua na tal conferência na Universidade de Nova York, em que já aparece em cadeira de rodas e respirando com auxílio de máquinas. O diagnóstico veio justamente em 2008, época em que desistiu de vir ao Brasil.
A descrição de Judt, feita mais de secura e resignação que de autopiedade, é forte e transforma a insistência da Flip numa atitude que pede esta autocrítica. Ela restitui as disputas por prestígio à dimensão que efetivamente possuem.
Claro que as regras do jogo existem e devem ser respeitadas: na Flip como em qualquer instituição cultural, o perfil ideal de participante alia qualidade do trabalho, respeitabilidade crítica e notoriedade. É nisso que a curadoria centra foco e não me parece errado que seja assim.
Mas quando a vida é quem apresenta a conta, a hora é boa para repensar os critérios e lembrar quais os valores que de fato importam.